Dr. Igor Padovesi - Especialista em Obstretrícia e Ginecologia
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Tadalafila para mulheres: o que a internet não explica

Tadalafila para mulheres: o que a internet não explica

O que é a tadalafila e o que ela faz no organismo

A tadalafila pertence à classe dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE-5). Em termos práticos: ela promove vasodilatação e interfere na dinâmica do fluxo sanguíneo em determinados tecidos.

- Em homens, isso tem um caminho terapêutico mais estabelecido para disfunção erétil (e também há uso em outras condições específicas).

- Em mulheres, a hipótese é que possa haver aumento discreto de vascularização genital em alguns cenários — mas isso não equivale automaticamente a melhora de desejo, prazer ou satisfação.

Porque, na fisiologia feminina, “resposta genital” e “desejo” não são sinônimos. E, na vida real, saúde sexual é um ecossistema: hormônios, mucosa, dor, contexto emocional, qualidade do sono, estresse e relacionamento.

Por que o efeito “não é igual” em mulheres?

A promessa de internet costuma reduzir tudo a um botão: “tomou → melhorou”. Só que, em mulheres, o que mais derruba a sexualidade não é falta de “fluxo sanguíneo” isoladamente.

Exemplos comuns na prática clínica:

- Menopausa: alterações hormonais, ressecamento, dor, queda de libido e impacto emocional.

- Dor na relação: quando há dor, o corpo aprende a evitar (mesmo com vontade).

- Estresse crônico e cansaço: cortam desejo pela raiz, não por falta de remédio, mas por falta de sistema.

Aqui entra a régua correta: tadalafila não é protocolo universal para questões sexuais femininas.

O que a ciência mostra hoje (e por que não é indicação padrão)

Existem estudos avaliando tadalafila em mulheres com queixas de excitação/arousal, mas os resultados são heterogêneos e, em muitos casos, modestos — o que sustenta a posição de que não é conduta de primeira linha para “uso amplo” em mulheres.

Tradução executiva:

- Pode existir benefício em subgrupos muito específicos.

- Não dá para vender como “garantia”.

- E o que a internet mais ignora: segurança e estratégia importam mais do que “sensação pontual”.

O alerta regulatório que virou sinal vermelho

Quando o produto vira “bala”, “gummy” e “prateleira”, você não está apenas discutindo eficácia. Você está entrando em risco sanitário.

A Anvisa proibiu a comercialização, distribuição, fabricação, manipulação, propaganda e uso de lotes do produto “Metbala”, por falta de regularização e por a empresa não possuir autorização para fabricar medicamentos — e reforçou que tadalafila é medicamento sujeito à prescrição.

Isso muda o jogo: aqui o risco não é só “efeito colateral”. É origem, dose, qualidade, procedência e responsabilidade.

Riscos e pontos de atenção

Efeitos adversos possíveis incluem cefaleia, dispepsia/indigestão, rubor, dor nas costas, mialgia e congestão nasal, entre outros.

O risco “estratégico” é outro: uso repetido sem avaliação = falta de diagnóstico + repetição + falsa segurança.

E há interações que não são negociáveis:

> Nitratos + tadalafila é uma combinação contraindicada, porque pode potencializar queda de pressão arterial.

> Cautela com outros medicamentos que também reduzem pressão e com algumas interações metabólicas (CYP3A4).

Observação importante: algumas apresentações comerciais para disfunção erétil/HPB trazem “uso não indicado para mulheres” na bula. Isso não apaga o fato de existir tadalafila com indicação em condições específicas (ex.: hipertensão arterial pulmonar), inclusive em mulheres — o ponto é: indicação depende de contexto clínico.

Menopausa: onde a conversa fica ainda mais séria

Na menopausa, o corpo muda de fase — e o que funciona é estratégia, não impulso.

Em vez de apostar em atalhos, o raciocínio de ginecologia moderna é:

- entender se há síndrome geniturinária da menopausa, dor, ressecamento, queda de libido, impacto emocional;

- construir um plano com terapias e medidas com melhor previsibilidade;

- acompanhar resposta e ajustar.

Esse é o tipo de cuidado que sustenta resultado — sem prometer “milagre”, mas entregando consistência.

A internet vende “controle rápido”. A medicina entrega controle responsável. Tadalafila pode até aparecer como possibilidade em cenários específicos, mas não é — e não deve ser — tratada como “solução universal” para mulheres. O caminho mais curto para resultado real continua sendo o mais profissional: avaliação, diagnóstico e plano.

Para ler a notícia original no UOL, veja a matéria aqui.

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